Como Escrever uma boa Sinopse

by - domingo, julho 21, 2019



A sinopse é o terceiro elemento mais importante na hora de atrair o leitor (atrás somente da capa e do título), e o primeiro a fisgá-lo. É nesse pequeno espaço que você irá vender seu peixe, quase um “se vira nos 30” do Faustão, porque, literalmente, há outras milhares de sinopses para que o leitor afoito pela próxima leitura possa ler rapidamente até que encontre o entretenimento da vez.

Então, querido autor, não desperdice uma vírgula sequer desses preciosos parágrafos com resumos do tipo “leia e descubra”, porque o leitor irá ler o projeto de sinopse, dar risada e dizer: “Quem sabe na próxima encarnação”. Se o escritor não se deu nem ao trabalho de pensar numa coisa tão pequena quanto uma sinopse, quem garantirá que ele realmente pensou no enredo de um livro com não-sei-quantas-páginas?!

Ah, também há o “leia e descubra” gourmet. É aquela sinopse imensa, que você lê e lê, para no final te dizer absolutamente nada.

É aí que nasce seu marketing negativo.

Sinopse é um bicho-de-sete-cabeças porque, nós, autores, temos dificuldade em resumir nossos filhos, isto é, obras de arte. Quem quer se gabar do seu filho com um “ele sabe inglês” ou “é o melhor da turma”, quando podemos dizer que “ele aprendeu inglês em seis meses e já dá aula para outros alunos” ou “ele tirou as maiores notas da turma, foi indicado a projetos importantes no exterior e vai receber por isso”?

Resumir não reduzirá os feitos do seu rebento, só não se aprofundará neles por enquanto. O “como” ele conseguiu tais proezas a gente deixa para a pessoas conhecê-lo e tirar suas próprias conclusões. No nosso caso, permita que os leitores leiam o livro na íntegra para descobrir.

Ser direto é diferente de usar expressões vagas e genéricas, a típica sinopse da Sessão da Tarde, no qual “um grupo de amigos vão se encontrar para mais uma aventura, que garantirá muita diversão”. Ser direto é usar as palavras certas, ter clareza ao que você pretende entregar ao leitor.

O protótipo de uma sinopse funciona da seguinte forma: 

1. Apresentação do mundo/ambiente, a vida do protagonista ou introdução do que se trata o livro. Neste primeiro item, entra coisas como o ano, a cidade, profissão do personagem, um resumo do protagonista... Enfim, elementos que traduzam o ambiente no qual seu leitor será enfiado.

No caso de “Os Delírios de Becky Bloom”, da Sophie Kinsella, como apresentação do livro foi dito que: “Rebecca Bloom é uma jovem londrina com o péssimo hábito do consumismo compulsivo. Apesar de ser uma jornalista especializada em mercado financeiro, ela não consegue controlar suas finanças pessoais.”. O autor escolheu apresentar o personagem e sua problemática, a obsessão pelas compras, que será o fator principal por trás da maioria das ações da protagonista ao longo do livro.

Já no livro “Extraordinário”, R. J. Palacio, somos apresentados ao Auggie, “que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas.” Esse será o drama que o garotinho terá de lidar na trama.
Este tipo de sinopse, isto é, apresentação do personagem e seus dilemas, é muito usado para livros de romance romântico, comédias e cotidiano.

Em “Jogos Vorazes”, da Suzanne Collins, há uma explicação do que seria os tais jogos, como vemos adiante: “Após o fim da América do Norte, uma nova nação chamada Panem surge. Formada por 12 distritos, é comandada com mão de ferro pela Capital. Uma das formas com que demonstra seu poder sobre o resto do carente país é com Jogos Vorazes, uma competição anual transmitida ao vivo pela televisão, em que um garoto e uma garota de doze a dezoito anos são selecionados e obrigados a lutar até a morte!”. Um pouco grandinha, não é mesmo? Mas necessária, pois sabemos que o palco da história está justamente no jogo, e ele é tão importante para o enredo quanto os protagonistas.

Apresentar o mundo na abertura da sinopse é muito usado em livros de ficção científica e seus subgêneros, assim como fantasia e ficção histórica.

2. O conflito ao qual o (a) protagonista será introduzido (ou mais de um). É aqui que você revelará porque sua história deve ser lida ou não. O conflito é a ação que fará o personagem chegar ao clímax do livro, o ponto mais alto da trama, o momento histórico no qual deverá lutar ou morrer. Ou, no caso de Becky Bloom, finalmente dar um jeito em suas dívidas. Nem todo personagem corre risco de vida...

É justamente neste ponto da sinopse que muitos autores pecam. Dizer o conflito do livro não é dar a solução dele. Falar “pelo o quê” seus personagens irão lutar não é o mesmo que informar “como”. O motivo está na sinopse, mas a resolução está no livro. Afinal, ninguém gosta de spoilers, não é mesmo? Se você diz “quando”, “como” e o “porquê” logo no início, o que te faz pensar que o leitor gastará horas do seu dia lendo algo que já soube em poucos segundos? Vamos manter o mistério.

Você pode estar pensando: “mas em livro de romance, por exemplo, todo mundo sabe que o mocinho ficará com a mocinha... Como manter o mistério?”. A resposta é a magia da escrita criativa: há mais exceções que regras, cada caso é um caso e, no final, tudo se resume ao tato do autor. Além do mistério, há um elemento importante que chamarei de “palavra-chave”.

A palavra-chave é hashtags, por assim dizer, que resume sobre o que é seu livro. A primeira usada é o gênero do livro, e as demais o conteúdo. Cada história há especificidades que carregam o interesse do leitor. A palavra-chave não é literalmente usar hashtags na sinopse, e sim mesclá-las ao longo do resumo.

Como consumidora voraz de romance, ler a sinopse de um livro e saber que se trata de romance não basta. Quero informações sobre o que esperar do casal, pois livros em que os protagonistas vivem discutindo é o que mais me agrada e o que procuro no gênero. Sei que eles ficarão juntos e se entender no final (na maioria dos casos), mas meu interesse na leitura não é o fim, e sim o desenvolvimento dos protagonistas até lá. Se na sinopse houver a palavra-chave “amor x ódio”, automaticamente meu interesse pelo livro será acionado.

Assim como meu interesse por livros de suspense que tratem de forças sobrenaturais (“fantasmas”, para ser mais específica). Um suspense com “psicopatas” como a palavra-chave, por exemplo, não irá me atrair, pois não é meu assunto favorito.

Devo fazer o click-bait, isto é, omitir a palavra-chave na sinopse e fazer os leitores darem uma chance ao livro, quem sabe gostar, antes desses “pré-conceitos”? É uma escolha sua. Prefiro deixar logo claro na sinopse, pois tenho certeza que irei conquistar meu público alvo, e o nível de desistência ao longo da leitura tende a ser menor. Sobre os leitores fora do nicho, aciono outros elementos que talvez os desperte. Um romance policial que pode ou não formar um casal agrada o amante do gênero e convida outros a darem uma chance àquela nova modalidade a problemática.

Usando o exemplo dos livros já citados, como conflito “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom” diz: “Endividada até a alma, vive fugindo do seu gerente de banco e procurando fórmulas mirabolantes para pagar a fatura do cartão de crédito. E ainda encontra tempo para se apaixonar.” O leitor que ler essa sinopse provavelmente irá se interessar por: 1) como Rebecca sairá dessa fria ou se irá, 2) quem será o tal interesse romântico no meio da confusão, 3) ele se identificou com o dilema da personagem e quer saber no que vai dar. Em nenhum momento o editor disse como a protagonista iria resolver seus problemas. O mistério foi lançado.

Em “Extraordinário”, temos: “Por isso ele [Auggie] nunca frequentou uma escola de verdade... até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente.” O leitor sabe o clichê que é o primeiro dia de aula na escola nova, sem amigos, e sem saber o que esperar dali em diante. O que o leitor não sabe é como seria o primeiro dia de uma criança com uma deformidade no rosto, que nunca foi à escola, e não tinha contato com outras crianças até então. Novamente, o mistério foi implantado. Como Auggie irá se virar? Só lendo para descobrir.

No terceiro exemplo, em “Jogos Vorazes”, o escritor explica: “Para evitar que sua irmã seja a mais nova vítima do programa, Katniss se oferece para participar em seu lugar. Vinda do empobrecido distrito 12, ela sabe como sobreviver em um ambiente hostil. Peeta, um garoto que ajudou sua família no passado, também foi selecionado. Caso vença, terá fama e fortuna. Se perder, morre.” Não sabemos quem vai ganhar ou perder, mas neste ponto da leitura, você com certeza está se coçando para saber as regras do jogo e o que tem de tão traiçoeiro capaz de matar as pessoas participantes. Está aí o conflito perfeitamente apresentado.

3. O terceiro e último passo seria um fechamento de tudo que foi dito anteriormente. Este espaço tem o poder de fazer o leitor largar todas suas atividades atuais e dizer: “Eu preciso ler isso imediatamente” (ou olhar para trás e pensar que tudo que foi dito não o convenceu, acontece também). Infelizmente, já li sinopses que o conflito e a apresentação do personagem até me fisgaram, mas a conclusão foi tão morna (e o autor meio que entregou como as coisas seriam resolvidas), que simplesmente deixei para lá e falei “próximo”.

Nesse parágrafo é bom provocar o leitor. Deixar uma pergunta ou algumas no ar, acrescentar mais palavras-chaves para convencê-lo de vez a ler, ou a famosa frase de impacto que dará o xeque-mate. Veja bem, frase de impacto é muito diferente de uma frase-pronta-receita-de-bolo. A primeira estimula, e o leitor diz: “uau!”; a segunda ele pensa que o livro se trata de mais uma obra de autoajuda (nada contra o gênero!). Já vi autores pegando ditados famosos e batidos e fazendo trocadilhos com eventos do livro; é um jeito bem legal de dar um upgrade no tradicional e ainda divertir o leitor.

Muitas sinopses no Wattpad, por exemplo, param no conflito, não há a amarração para conectar tudo. Pode funcionar sim, mas na maioria dos casos, a gente termina a leitura com a sensação de que algo está faltando. Isso não impede de gerar curiosidade no leitor, mas pode soar um pouco mal-acabado.

Vamos aos exemplos já trabalhados. “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom” finaliza com: “Um romance bem divertido que faz um retrato de muitas mulheres das grandes cidades”. Claramente, usou palavras-chaves para terminar de convencer os últimos leitores indecisos que naquele livro há o que ele procura. Só tome cuidado ao dizer às pessoas o que elas vão ou não sentir, pois pode soar até egocêntrico. Meu conceito de diversão não é o mesmo que o seu, e por aí vai. Beirou quase a sinopse de Sessão da Tarde, mas por se tratar de uma comédia romântica, a gente costuma relevar (eu te incentivo a fazer diferente na sua sinopse). O texto inicial já tinha me convencido e, felizmente, a última linha não foi o suficiente para quebrar meu encanto.

Em “Extraordinário”, o editor entrega: “Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular em Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros”. Note que a localização da história só foi citada no final, então mais uma vez afirmo que na escrita, há mais exceções que regras. O autor terminou de explicar a problemática, sugeriu o confronto e fechou com uma lição de moral; “Somos todos iguais” é uma frase batida, mas o fato dele ter associado a deformidade do Auggie, algo não tão comum e explorado, deu um novo efeito.

“Jogos Vorazes”, conclui-se que: “Mas para ganhar a competição, será preciso muito mais do que habilidade. Até onde Katniss estará disposta a ir para ser vitoriosa nos Jogos Vorazes?”. Aqui vemos uma condicional, uma técnica legal para instigar o leitor. O mundo foi apresentado, assim como o conflito, mas há um porém, que é o elemento que dificultará ainda mais a resolução do clímax, o famoso “fogo no parquinho”. No final, é lançada a provocação através de uma pergunta.

Algumas dicas essenciais na hora de montar sua sinopse:

É interessante que o nome dos protagonistas seja citado para gerar a intimidade e identificação com o leitor. Mas tome cuidado: cite somente os personagens essenciais. Você não precisa dizer o nome dos amigos deles, da família, do cachorro e etc, a não ser que sejam importantes e relevantes para a trama. No mínimo, eles devem ser personagens de primeiro plano, isto é, aqueles que você aprofunda minuciosamente e há toda uma construção em torno de sua história de vida.

Perceba que na sinopse de “Os Delírios de Becky Bloom”, o par romântico de Becky, Luke Brandon, nem sequer é mencionado. Ele até que é um personagem relevante, mas a trama não gira ao redor do seu romance com a protagonista, e sim as dívidas exorbitantes dela.

Em “Extraordinário”, os colegas de classe que farão parte da vida de Auggie também não são apresentados, mas citá-los ou não, não fará diferença para o conflito, pois a gente deduz que por se passar em uma escola, haverá outras crianças, e elas provavelmente serão uma das causas do confronto. Fora que os leitores rapidamente irão se esquecer desses nomes, ainda mais a história sendo contada na primeira pessoa, pelo ponto de vista do Auggie.

“Jogos Vorazes”, por sua vez, entrega o nome dos protagonistas, mas note que por mais que a irmã de Katniss, Primrose, seja o empurrão para ela participar do jogo, vemos que seu nome não é dito em momento algum. A função da sinopse não é só informá-los quem são os donos do livro, mas também gerar o primeiro contato do personagem com o leitor. Na vida real, você se sente mais confortável quando é apresentado (a) a uma pessoa por vez ou quando surge um grupo com várias pessoas ao mesmo tempo? Pense nisso na hora de criar sua sinopse.

Você pode até conhecer a árvore genealógica inteira do personagem e na sua mente achar que todos são importantes, pois já convive com a história. Mas seu leitor, que nem sequer sabe o nome do protagonista, com certeza não está interessado em saber o nome do tataravô do personagem (a não ser, claro, que o tataravô seja relevante).

Outra dica, que serve mais como um conselho, é que você deveria escrever a sinopse somente com o livro finalizado. Sei que alguns soltarão muxoxos neste momento ou até mesmo revirar os olhos para mim, uma vez que nem todo mundo se dá ao luxo de terminar o livro antes de postar. Qual melhor momento para se ter uma visão ampla da obra prima senão quando finalizada? Tudo estará claro: os protagonistas, personagens relevantes, os conflitos, o que seria ou não um spoiler, e a lição que você quis passar com tudo isso.

Se ainda assim preferir postar antes do fim, tudo bem, é possível escrever uma sinopse legal da mesma forma. Porém, tenha em mente que, sem confronto, não há história. Pelo menos isso deve ser pensado antes de tocar na sinopse. Afinal, ninguém está interessado em um personagem sem atrativos no seu dia ou algo que minimamente desperte nossa curiosidade para acompanhá-lo.

Você deve ter percebido a estrutura “início”, “meio” e “fim” da sinopse. A ordem citada importa? Talvez. Monte sua linha do tempo e veja se faz sentido. Tem de ser exatamente três parágrafos? Não! Há sinopses em que o autor consegue a proeza de explicar tudo em um único parágrafo, e outros que preenchem quase uma página inteira do Word. Óbvio que sinopses menores chamam mais a atenção e convida o leitor a querer ler, porém, não se martirize com isso. Segundo a enquete feita nos Stories do Instagram do “Eu Amo Escrever” (se ainda não conhece, segue lá: @euamoescrever_oficial), 86% das pessoas que responderam, disseram dar uma chance a sinopses longas, enquanto 14% passavam direto. Faça o que é necessário para o seu livro, lembre-se das exceções.

Outro fato bastante mencionado em matérias sobre sinopses, é que elas devem ser escritas na terceira pessoa e no presente. É o usual? Sim. É uma regra? Talvez para as editoras, mas você que está aí apenas interessado (a) em postar no seu site favorito, não há motivos para se limitar a essa informação. Já li muitas sinopses legais na primeira pessoa.

Por último, fazer da sinopse um trecho do livro. Polêmico? Bastante! Não tanto quanto o “descubra e leia”, mas carrega seu mérito. Li livros com esse tipo de sinopse, entretanto, em minha defesa, os trechos foram escolhidos a dedo pelos autores e eram sobre assuntos que eu tinha interesse. Exceção à regra, lembra-se? Mas essa é uma das raras!

Deixe sua sinopse aí nos comentários que irei avaliá-la sinceramente e dizer se eu leria ou não sua história e o porquê!

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